Handebol luta para deixar de ser um esporte praticado apenas nas escolas

24/03/2010

Handebol luta para deixar de ser um esporte praticado apenas nas escolas

Handebol Luta Para Deixar Ser Um Esporte Praticado Apenas Nas Escolas

Seus pais trabalhavam por conta própria, com uma barraca que vendia comida de rua, como pastéis e batata frita. “Como eu era o filho mais velho, era o responsável por ajudar mais”, recorda. Precisou pedir aos pais que tivessem um pouco mais de paciência para que as coisas começassem a acontecer para ele. E aconteceram: hoje, aos 33 anos, ele estampa no currículo títulos, participação nos principais campeonatos nacionais e internacionais, seleção brasileira. A história do jogador poderia ser facilmente confundida com a da maioria dos jogadores de futebol, que obtêm no esporte aquele tipo de catarse gloriosa a sepultar um passado de adversidades. Só que Marcos Paulo, o Marcão, não é colega de profissão de Kaká, mas um dos goleiros mais importantes da história do handebol brasileiro.

Pois essa modalidade, que não deixa de ser um futebol disputado com as mãos, parece merecer um capítulo à parte quando se analisam os esportes ditos “amadores”, no Brasil. Ainda que ignorado pela TV aberta e longe da popularidade do vôlei e do basquete, o handebol é a segunda modalidade mais praticada nas escolas, só atrás do futsal. Segundo a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb), estima-se que existam mais de 1 milhão de praticantes no país – num cálculo que inclui atletas não necessariamente confederados (os que participaram de algum torneio de nível nacional). A boa adesão no âmbito escolar, no entanto, não se traduz na mesma projeção em competições adultas. Por consequência, a modalidade parece fadada a um círculo vicioso: a incipiência de projetos de formação de novos talentos, que trava o surgimento de novas equipes competitivas nos principais torneios. Isso leva a uma natural dificuldade para a formação de boas seleções brasileiras, comprometendo a evolução qualitativa do país na modalidade.

Manoel Luiz Oliveira, o presidente da CBHb, lembra que a própria estruturação da entidade é relativamente recente na comparação com as federações de outros esportes – completou, em junho de 2009, 30 anos de fundação. “Quando era um departamento da antiga CBD [Confederação Brasileira de Desportos], geralmente não era admi-nistrado por pessoas do esporte. Isso nos causou algum prejuízo em termos de organização”, lamenta. A prática do handebol, no entanto, já existia no país bem antes da chegada da CBHb. Padronizada internacionalmente, nas regras atuais, pelo alemão Karl Schelenz na esteira da Primeira Guerra Mundial (há citação de jogos com características parecidas até na Odisséia de Homero), a modalidade foi trazida ao Brasil por imigrantes germânicos na década de 30.

Foi em São Paulo que o handebol melhor se desenvolveu, com a Federação Paulista – fundada nos anos 40 – organizando as primeiras competições oficiais. A origem da disseminação do esporte na seara escolar costuma ser atribuída a um professor de educação física francês, Auguste Listello, que, em meados da década de 50, ministrou um curso na cidade de Santos (SP) para professores de outros estados, sobre os conceitos do handebol. Em poucos anos, a modalidade tornou-se uma coqueluche nas quadras escolares, tanto que, em 1971, o MEC (Ministério da Educação) incluiu o handebol nas duas maiores vitrines esportivas estudantis: os JUBs (Jogos Universitários Brasileiros) e os JEBs (Jogos Estudantis Brasileiros).

Marcão, o goleiro, já sonhava, quando criança, em se tornar um atleta de handebol. Mentira: ninguém sonha em se profissionalizar num esporte sem evidência. “Você vai pela intuição”, ele diz, sobre a sensação de tatear no escuro no início da carreira esportiva. A grande dificuldade no desenvolvimento do handebol como esporte de alto rendimento no país parece ocorrer no momento em que os estudantes saem dos colégios, ao se formar no ensino médio. “Quando a criança se torna adolescente e tem que decidir sobre o futuro, ela é obrigada a parar a prática do handebol porque precisa trabalhar”, analisa Maria José Sales, a Zezé, um dos nomes mais vitoriosos do handebol feminino, hoje atuando na areia. “Muita gente jogou handebol no colégio e, depois que sai, perde o contato, a familiaridade com o esporte”, concorda Fabio Vanini, atleta do Pinheiros com muitas passagens pela seleção. Na geração de Marcão, Zezé e Vanini, essa lacuna no pós-colegial só foi de alguma maneira coberta por terem sido estimulados por terceiros a acreditar no próprio talento e a descortinar, no peito, as próprias oportunidades.

Por influência de Marcão, os irmãos Maik (hoje na seleção), Paulinho e Vanessa também acabaram cooptados para o handebol. Zezé, que é de São Gonçalo (RJ), praticava outros esportes na escola: basquete, atletismo e judô. “Gostava muito do esporte em geral”, conta, lembrando que também quis tentar a sorte na modalidade que sua irmã praticava, o handebol. A princípio, Zezé começou como goleira. “Mas eu sempre tive força e, quando notaram isso, resolveram que eu devia ser aproveitada melhor na linha.” Aos poucos, seu interesse pelo handebol foi afunilando, muito em função de sua entrada para um clube da cidade, o Mauá, que tinha um bom departamento de handebol. A carreira foi se desenhando naturalmente, até porque uma universidade patrocinava a equipe. “Então ficava tudo mais fácil”, diz, referindo-se à obtenção de uma bolsa de estudo. Com um ano de treinamento no Mauá, já foi chamada para “ganhar experiência” na seleção brasileira adulta. Entre o handebol de quadra e o de areia, Zezé acumulou quase duas décadas defendendo as cores do Brasil.

Vanini, por sua vez, não contou com a sorte geográfica da existência de um clube nas proximidades de casa. Nem por isso deixou de acreditar que sua vida passaria a ser dedicada integralmente ao handebol. No colégio, quando viu seus amigos se inscreverem na modalidade, acabou seguindo-os na escolha, embora preferisse futebol e vôlei. Como Zezé, ele também começou no gol, mas, por ser canhoto, passou a ser estimulado a ir para a linha. “Era um diferencial”, revela. Dali para começar a jogar numa equipe, o Sírio, foi um salto. “Acabava a aula do colégio de manhã, eu ia para casa, almoçava e já saía para pegar dois ônibus e um metrô para chegar ao clube”, recorda. Considera que o próprio esporte ajudou a ditar seu rumo, porque Vanini não tinha segurança para decidir-se por qualquer carreira universitária. “Entrei em sete faculdades de áreas diferentes, e não consegui concluir nenhuma.”

O caso desses atletas evidencia que se houvesse uma estrutura mais disseminada pelo país em clubes, o fortalecimento do esporte de base ocorreria de forma natural. “Precisamos absorver esse material que está vindo das escolas. Bem ou mal trabalhado, ele está vindo. Mas são poucos clubes hoje no Brasil e muitos talentos se perdem”, constata Sergio Graciano, técnico da equipe feminina do Blumenau. Sua própria trajetória no handebol é reveladora de que, com planejamento sério de longo prazo, os frutos são certeiros. Em 1994, a então equipe adulta blumenauense foi dissolvida por uma série de desentendimentos internos. “Tinha uma comissão técnica que não olhava para baixo. Vivia muito de contratação”, conta.

Ex-atleta e formado em educação física, ele foi convidado pelo presidente do clube para desenvolver uma reestruturação ampla – Graciano já atuava com equipes escolares na cidade. “Era um projeto de seis anos, de 1994 a 2000, para que a gente reerguesse o handebol feminino de Blumenau”, explica. O êxito do trabalho pode ser medido pelo surgimento de pelo menos três jogadoras que, em dezembro último, representaram o Brasil no Mundial da China: Silvia Helena, Duda e Scheyla. “São atletas que aprenderam a jogar handebol aqui”, orgulha-se Graciano.

Outra solução no segmento clubístico seria que equipes de tradição saíssem da clausura do futebol para investir, também, em outros departamentos. “Equipes grandes participando de qualquer evento são sempre notícia. A gente entra mais na mídia, consequentemente o handebol fica mais popularizado”, exalta Graciano. Houve pelo menos uma experiência nesse sentido: a do Vasco, que, em 1999 – frente à iminência olímpica dos Jogos de Sydney, no ano seguinte – estruturou seus esportes amadores. Zezé lembra que, numa partida do Vasco contra o Mauá, nunca viu um ginásio tão lotado para um jogo da modalidade. “Porque as outras torcidas que eram contra o Vasco – do Fluminense, do Flamengo – ficaram a favor do Mauá”, conta, lamentando que a experiência tenha tido vida curta.

Para o professor de educação física Jefferson Castro – que está prestes a iniciar uma pesquisa acadêmica exatamente para investigar as razões de o handebol não estourar no país –, o Brasil seguiu, na modalidade, o método de desenvolvimento europeu, que é baseado no clube. “Só que os europeus têm a cultura de ir ao clube, coisa que o brasileiro não tem tanto”, constata, para justificar a fragilidade estrutural das equipes. Castro entende que o handebol, tal como está hoje, tende a ser mais um esporte de iniciação para o jovem do que um esporte de rendimento, porque o conhecimento está polarizado na Grande São Paulo. “Se comparar técnica e taticamente o jogo de uma equipe do interior com times da capital, há um salto muito grande”, diz, considerando que uma política que incentivasse estágios de treinadores entre as duas pontas ajudaria a minimizar essa diferença. O presidente da CBHb cita, para 2010, a efetivação de uma Escola Nacional de Técnicos.

Além da incipiência de clubes e de projetos de formação, também existe uma forte corrente que atribui a baixa popularidade do esporte aos fracos desempenhos brasileiros nas competições de ponta.

Ainda que seja uma referência nas Américas – tanto a seleção feminina quanto a masculina são bicampeãs pan-americanas, dos Jogos de Santo Domingo (2003) e do Rio de Janeiro (2007) –, o Brasil não passa de coadjuvante nos níveis olímpico e mundial. “Nós vamos buscar estrutura para os clubes para podermos trazer os melhores atletas e conseguir resultados, ou vamos ter que esperar os resultados, para daí poder estruturar os clubes?”, questiona Graciano, lembrando que o vôlei brasileiro só se fortaleceu depois da conquista do ouro olímpico nos Jogos de Barcelona-92. O técnico considera que esse tipo de situação é típica do Brasil: o investimento aparecer só após os louros da vitória. “Lembro do Gustavo Kuerten, antes de ir a Roland Garros, hospedado em hotel de terceira categoria. Depois que ganhou, muitas portas se abriram para ele”, compara. Em busca de resultados, a Confederação tem apostado em treinadores estrangeiros: o dinamarquês Morten Soubak, e o espanhol Javier Garcia Cuesta, respectivamente no comando das seleções feminina e masculina.

A falta de evolução do handebol brasileiro é sintomática nos resultados olímpicos. No masculino, o Brasil ficou em 120 lugar em Barcelona-92, 11 em Atlanta-96, 100 em Atenas-04 e 110 em Pequim-08. Já as meninas ficaram em 80 lugar em Sydney-00, 70 em Atenas-04 e 90 em Pequim-08. A conclusão de que o nível do handebol feminino estaria um pouco à frente do que o masculino não é equivocada. Das 15 atletas convocadas para o último Mundial, sete atuavam no exterior. E o intercâmbio com outras escolas tende a favorecer a evolução do jogo. “Muitas que jogam na seleção enfrentam adversárias que são companheiras de equipe”, avalia Vanini, que atribui o interesse crescente do mercado europeu sobre nossas atletas à menor discrepância no padrão físico que se verifica entre as mulheres.

Em relação aos homens, a exportação dos atletas só tem se verificado em situações esporádicas e pontuais. O caso mais emblemático é o do armador Bruno Souza (veja boxe). Mas a verdade é que, nessa modalidade, o Brasil ainda não é visto como um eldorado de talentos, como ocorre no futebol, no vôlei e até no basquete. Vanini passou por uma experiência na Suíça, entre o final de 2008 e o início de 2009. “Precisavam de um jogador na ponta-direita”, recorda. Foi um empréstimo curto, de seis meses. Pelo fato de a Suíça não ter uma grande tradição na modalidade, o jogador reconhece que subestimou o handebol do país. “Achei que fosse chegar lá e jogar como jogava aqui, fazendo dez gols por jogo”, lembra, dizendo que a competição contava com 12 equipes muito parelhas. “E de um nível muito, mas muito mais forte do que a Liga Nacional (brasileira).”

Além da questão da troca de conhecimento, a saída de atletas para o exterior também tem a ver com a falta de um mercado atrativo no Brasil. “O handebol se caracteriza como esporte amador, mas para mim não é, porque tenho horários para cumprir e ganho para isso”, ressalva Marcão. O parceiro de equipe Vanini concorda, considerando que, embora a estrutura seja amadora, a filosofia já é profissional. “No Pinheiros, já temos treinamento em dois períodos: um técnico e tático e outro físico”, completa. A remuneração é que não acompanha o que seria esperado de um esporte de alto rendimento. Sergio Graciano assegura que há clubes na Liga Nacional que não pagam mais do que R$ 200 para uma atleta, embora o patamar médio seja um pouco superior. “De R$ 600 a R$ 1 mil é o que ganham 70% das atletas. As melhores recebem entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, e as que estão em clubes privilegiados, acima de R$ 3 mil. Mas dá para contar nos dedos de uma mão quem recebe isso”, revela.

Participante da Caravana do Esporte, projeto da ESPN Brasil de caráter inclusivo-educativo por meio de atividades esportivas, Zezé conta que, muitas vezes, o desconhecimento sobre sua modalidade é total. “As crianças perguntam: ‘O que é handebol?’”, chateia-se. A atleta, que sempre pensou no esporte de forma competitiva, percebeu nas peregrinações com o programa que a realidade esportiva fora dos grandes centros, às vezes, inexiste por completo. Nas atividades que ela organiza, as crianças jogam de sandália de dedo, quando não descalças. “Raramente vejo alguém de tênis”. Numa cidade no agreste da Bahia, Ibotirama, vivenciou a experiência de ver um garoto implorar que a Caravana o levasse embora dali. Zezé lamenta a inexistência de uma estrutura que gerasse uma oportunidade de testar um jovem daqueles num centro esportivo. “Queria ver se essa pessoa, com todo sofrimento que tem, em um mês não renderia muito mais do que quem tem melhores condições”, desafia.

Evidentemente, não é tão simples mudar esse estado de coisas. Pequenas conquistas já têm sido festejadas por quem já passou por tantas provações. Zezé conta que, no início da carreira, chegou a dormir em arquibancada em período de competição, por não ter alojamento. “Hoje, se não tiver um quarto, que é o mínimo mesmo, as atletas simplesmente não se apresentam. Ou seja, ainda não é o ideal, mas melhorou”. Marcão reconhece os esforços da Confederação em prol do esporte, mas acha que a entidade poderia ser mais incisiva. “No sentido de buscar a mídia aberta”, diz, lembrando que as transmissões do handebol se restringem à TV por assinatura. “Também discordo da sede ser em Aracaju. O polo do handebol está aqui em São Paulo, então a Confederação deveria estar por aqui. Seria mais fácil para clubes do interior e da capital.”

O presidente, por sua vez, se diz empenhado em catapultar o handebol do Brasil a uma nova era. Reivindicação corrente, a adequação do calendário brasileiro ao europeu está prevista para 2010. Sem a adequação, o próprio calendário biológico dos atletas é comprometido: em vez das férias a partir do término da Liga Nacional, em meados de dezembro, muitos tiveram que atender a convocação para a Seleção Brasileira, que enfrentaria um desafio internacional (de duas partidas) contra a Itália. Manoel Luiz Oliveira, o presidente, diz que a Confederação investirá pesado no trabalho de detecção de novos talentos, de modo a atender os perfis de atletas indicados pelos treinadores das seleções nacionais, Puerta e Soubach. A ideia é que uma espécie de seleção B, com jogadores juniores e juvenis, seja gradativamente forjada até 2013. “Essa nova seleção se integrará à seleção que já existe, os remanescentes, para jogar [a Olimpíada de] 2016”, visualiza.

Iniciativa elogiável nesse sentido foi a nova investida no público escolar por conta da Copa Petrobras de Handebol, torneio de abrangência nacional com a participação de 9 mil estudantes, de colégios públicos e particulares, com idades entre 11 e 14 anos. Na última de quatro fases, 32 equipes se encontrariam para os confrontos finais em Brasília – até o fechamento desta edição, o campeonato ainda estava em andamento. “Nessas competições, sempre tem alguém que pode indicar esses miniatletas, ou futuros atletas, para clubes de maior porte”, festeja o treinador Graciano. “A gente não pode deixar talentos esportivos fugirem por não ter um local de treinamento apropriado dentro de suas cidades.”

ACADEMIA ATIVIDADES:
https://bodyticket.com.br?atividade=ginastica
https://bodyticket.com.br?atividade=artes-marciais
https://bodyticket.com.br?atividade=spinning
https://bodyticket.com.br?atividade=musculacao

ACADEMIA HORÁRIOS
https://bodyticket.com.br
PREÇOS
https://bodyticket.com.br/

DIGA NÃO AS DROGAS CAMPANHA DA ACADEMIA WALL STREET FITNESS.
Atenção:
Não aprovamos e não nos responsabilizamos pelo uso de anabolizantes.
Não recomenda o uso de nenhum medicamento e/ou suplemento alimentar
sem a prévia recomendação de um médico ou nutricionaista.
Não inicie nenhuma rotina de treinamento sem a supervisão de um profissional da área do esporte.

Logobonecowall
ACADEMIA WALL STREET FITNESS
www.wallstreetfitness.com.br
(31) 3335-7227 (31) 3291-6590.
AV.CONTORNO 8000 - BAIRRO LOURDES
BELO HORIZONTE - MG
Mapa Wall
Visa
Malhe e pague com cartões Visa.
Satisfacao Garantida
Valor Titulo Remido Wall Street

Tags da Academia